PORTUGAL ATRAI MAIS ESTUDANTES ESTRANGEIROS, MAS TAXAS DE SUCESSO CONTINUAM ABAIXO DO ESPERADO

O ensino superior português registou 77 471 estudantes estrangeiros em 2023/2024, consolidando uma tendência de internacionalização sem precedentes. No entanto, o aumento da procura contrasta com persistentes dificuldades de integração, retenção e conclusão dos cursos, sobretudo entre alunos provenientes de contextos socioeconómicos mais vulneráveis.

O Relatório Estado da Educação é da responsabilidade do Conselho Nacional da Educação (CNE) e “foi pensado para proporcionar informação considerada relevante acerca de uma diversidade de questões do domínio da educação e formação e para suscitar análises e reflexões que, de algum modo, possam enriquecer o espaço público da educação, apresentando um conjunto de sínteses estatísticas referente a domínios reconhecidamente importantes para fazer um ponto de situação acerca do estado das coisas da educação.”
O Relatório Estado da Educação de 2024 (EE 2024) tem como lema: “conhecer para inovar, melhorar, incluir e enfrentar as desigualdades” e foi pensado e desenvolvido como uma ferramenta para uma reflexão da Educação em Portugal.
Em resumo, o relatório Estado da Educação 2024 revela um sistema educativo português em expansão, mais diverso e mais internacional. No total, 2 068 790 alunos frequentaram o ensino em Portugal no último ano letivo, dos quais 448 235 no ensino superior. Dentro deste universo, os estudantes estrangeiros representam hoje um peso significativo: 77 471 inscritos, com particular destaque para a comunidade brasileira, que continua a liderar as chegadas às instituições portuguesas.
A diversidade em crescimento deve-se a vários fatores: políticas de captação de estudantes internacionais, maior mobilidade académica e a atratividade económica e social de Portugal. No entanto, o relatório evidencia uma realidade menos visível: a integração académica permanece frágil. No ensino secundário, apenas 55% dos alunos estrangeiros concluem no tempo previsto, e no ensino superior persistem taxas de abandono preocupantes — cerca de 11% dos estudantes não são encontrados no sistema um ano após o ingresso.
As escolhas académicas mantêm-se concentradas nas áreas tradicionais de elevada procura, como ciências empresariais, engenharia e saúde. Embora exista investimento público — incluindo fundos do Plano de Recuperação e Resiliência — para reforçar áreas estratégicas como STEM, os efeitos ainda não se refletem no número de diplomados. Ao mesmo tempo, a conclusão dentro do prazo mantém-se baixa: só 41% dos estudantes terminam a licenciatura no tempo previsto, valor semelhante à média da OCDE.
Apesar do aumento de bolsas e apoios, a desigualdade continua a marcar o percurso académico. A barreira linguística, a falta de acesso suficiente ao ensino de Português Língua Não Materna e as diferenças culturais e curriculares de origem condicionam o desempenho de milhares de estudantes estrangeiros. O relatório alerta que a inclusão precisa de ser reforçada: mais acompanhamento, mais apoio pedagógico e estratégias de integração mais consistentes.
Em geral, a conclusão é que, o ensino superior público português tornou-se um destino cada vez mais procurado por estudantes estrangeiros, refletindo um sistema mais aberto e internacional. Porém, o crescimento não tem sido acompanhado por políticas de integração suficientemente robustas. As taxas elevadas de abandono no setor público, associadas às dificuldades económicas, linguísticas e culturais, mostram que os estudantes internacionais enfrentam obstáculos que comprometem o seu sucesso académico. O país está a internacionalizar o ensino superior, mas ainda não está a garantir que estes alunos consigam concluir os seus cursos nas mesmas condições de sucesso que os estudantes nacionais.
O ensino superior português está, assim, perante um paradoxo. Atrai cada vez mais alunos internacionais e ganha dimensão global, mas só transformará este crescimento em sucesso efetivo quando garantir que todos — nacionais e estrangeiros — têm condições reais para aprender, integrar-se e concluir os seus estudos.
(EiBizion 02/02/2026)

 

CONSELHO NACIONAL DA EDUCAÇÃO https://www.cnedu.pt/pt/publicacoes/estado-da-educacao

RELATÓRIO ESTADO DA EDUCAÇÃO DE 2024  AQUI

 

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